quarta-feira, 10 de março de 2010

Olhos nos Olhos

Valencia. 8 de Março.

Está frio. Saio de casa. Lembro-me do dia em que saí de casa sozinho para vir para Valência. Sozinho. Com um frio nos ossos que fazia doer todo o corpo. Mas doía-me mais que os ossos de frio. Doía-me estar sozinho. Ter passado a noite sozinho. A pensar em Ti. As pernas tremem-me e não estou sobre varas de bambu. A cara enegrece-se de um preto mais escuro que carvão. Ardo por dentro como se fosse acendalha de fogueira. Sou a própria fogueira. Um contínuo descontinuo de sensações termais. Um ir. Adeus. Até já. Até amanhã. Qualquer dia servia. ‘Hoje não, até lá então’ (cit. João Lobo). Por ser longe ou não, fica a saudade. Pouco tempo ainda pensei no que ficou. Tenho medo de não conseguir deixar de pensar nisso. Não gosto da palavra Adeus. A palavra Adeus é uma palavra fria, que mete medo. Não gosto de mostrar que tenho medo. Não gosto de ser assim, contínuo descontinuo…


5 de Março.
Um tapete que fazia de chão convida a descalçar. Estamos estranhos no chão. Pouco tempo. Integram-nos na alcateia. Sinto-me bem. Confortável. Sinto que gosto de estar aqui. Não existe o estado de humor de enfado como outras vezes. Convidam-nos a entrar em nós. Uma visita a nós próprios que seremos nós os condutores de vagão da memória, essa que vagueia por onde bem quer e entende. Devaneia por onde lhe apetece. Como gostava de ser memória. Mais, gostava que a memória fosse uma agência de viagens low-cost que me levasse onde esta estivesse. [sem pagar taxas pelos demais que levamos connosco].
Lágrimas no céu.
Há estrelas por toda a sala. Brilhantes e que aquecem os outros, que nos aquecem a nós. As estrelas vêem-nos? “hey! Estou aqui a saltar! Estás a ver-me??” Nós vemos as estrelas, se eu vejo, os outros também as vêem. Acho eu. Ao longo deste momento a minha barriga muda de humor. Ora parece que comi um almoço feito pela minha avó ou até o peixe depois do ensaio de teatro, que me soube tão bem como nunca outro peixe!, como parece que estou de jejum há um mês. Faço de conta que não se passa nada. Tento ser forte e não dar parte de mim. Contínuo descontinuo…
É mais forte do que eu agora. Senti aquela vontade de me levantar e começar a falar com toda a gente. De ficar calado a ouvir toda a gente sem pestanejar!
Dou-me conta das diferenças que ocorreram dentro de mim. São boas essas mudanças. Trazem boas e más recordações. Fazem-me sentir… Vivo! E que bom que é sentirmo-nos assim, não? Já antes me senti assim, alguns exercícios que fiz com um grupo de colegas, de amigos, de irmãos se lhes puder chamar assim. Mas desta vez estou longe deles, e eles estão todos aqui comigo, Todos, do A ao Z passando pelo J sem esquecer S’s! E estando longe deles fico mais quente, Como se agora estivessem aqui connosco. E na sala parece que sei o nome de todos os outros. Atento, escuto, Querendo falar, aguardo outra vez. Contínuo descontinuo, dou-me conta de como estou bem.


Olhos nos olhos

1 comentário:

  1. O Tempo pode convidar, os lugares, as pessoas. Mas é preciso o Eu deixar-se convidar. E tu certamente já (te) foste sentindo convidado. Não te censuro. Talvez fique verde. E depois até roxa (afinal há um[a] professor que vale a pena!). Mas depois fico azul. E lembro-me do que levou ao agora – já quase esquecido. Mas é mesmo um contínuo descontinuo; não me parece ser zigue-zague. Não, não me pareces, de todo, zigue-zaguear como qualquer um a quem tragédia-mor tenha acontecido. Nunca pareceste, na verdade. Lá está, “estou bem”, dizes. Ou ainda “pouco tempo ainda pensei no que ficou”. Porque nunca se pensa no que ficou para trás. O caminho é a seguir, dizem. E enquanto que aí tudo é continuo descontinuo, aqui “domingo sabe de cor o que vai dizer segunda-feira”! E eu também (/ainda) conheço essa conversa. E é isso mesmo FM (quem quer que sejas aí em Gasco Oliag, Valência): o Tempo corre depressa demais, há que aproveitá-lo!

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